Houve uma época em que eu cria, com todo temor possível, em uma série de coisas que não podem ser avaliadas pelas ferramentas do método científico. Essa crença era alimentada pelo dualismo cartesiano, normal durante a nossa infância. Quando crianças, temos essa natural tendência em dividir as coisas em opostos conceitualmente inconciliáveis. A consequência óbvia disto é a aceitação quase inquestionável, pela maioria dos 7 bilhões de humanos que pisam atualmente neste planeta, da separação entre material e imaterial, muito especialmente se esta "indiscutível" distinção diz respeito à nós. Acho que você já sacou do que estou falando, ou escrevendo (tanto faz). Não? Então, toma: temos um corpo, material, habitado por um espírito, ou alma, imaterial (poxa, isso é tão lugar comum que até me senti constrangido em anunciar), que deixará este receptáculo, constituído de músculos, ossos, nervos, pele e todo tipo de tecido que deixarei de fora dos exemplos, assim que, eufemisticamente, partirmos deste mundo (outro conceito cartesiano: este mundo!). Pois bem, então. Passei uma boa parte da minha adolescência, e da vida adulta, sem questionar essa certeza, sem, ao menos, pensar sobre! Fala sério.
Mas aí, como sói ocorrer com todo - tá, tá, nem com todos - indivíduo que dá de cara (ainda que não esteja procurando) com argumentos, simples, que se recusam a aceitar este dogma (sim, isso é um dogma! Central em toda crença, pode investigar. Vai lá, vai.), comecei a ficar incomodado com toda insustentabilidade das "evidências" fornecidas pelos defensores do além túmulo. Mesmo que nunca houvesse existido uma só manifestação desta natureza que pudesse, de qualquer maneira, ser sustentada por provas (os crentes - sem conotação pejorativa - se irritam com esta palavra, eu bem sei) irrefutáveis (todos os fenômenos foram desmascarados sim senhor), os argumentos a priori e a posteriori arquitetados, muitas vezes, com sinceridade emocionante, garantindo-nos toda a parafernália espiritual, não se abalam, nenhum pouquinho que seja. Ao contrário, aqueles que acreditam, recrudescem ainda mais seu arsenal retórico, reforçando-o com um grande número - eles consideram que são um grande número - de evidências que nós, céticos, não, simplesmente, queremos aceitar, porque somos truculentos demais em nossas arrogantes certezas científicas, sem a sensibilidade necessária para aquilo que está fora do alcance do que sonha nossa vã filosofia (Shakespeare que me perdoe. Ei, acho que ele não pode mais fazer isso). Só para refrescar-me a memória: no post sobre fundamentalismo, deixei claro que não é bem assim.
Ok, você pode me perguntar: cara, que mal há, ainda que seja tudo um monte de baboseira crédula, em aceitar a existência de uma outra vida, em outro mundo, que só nós é possível depois que formos (olha o eufemismo aí novamente) desta pra melhor? Well, welll...nenhum, se, e só se, centenas de milhares de pessoas não fizessem disto a justificativa para atitudes que, em qualquer outra esfera da vida humana, seria indefensável. Você pode enumerar um Himalaia destas, tenho certeza. E, ainda que os moderados, e sensatos (?), a esse respeito existam aos borbotões, sua moderação e tolerância dá abrigo (é só pensar um pouco só sobre isso e terá uma surpresa) aos absurdos da certeza metafísica.
Malditos Descartes e Platão!
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