sábado, 29 de outubro de 2011

I see dead people


Houve uma época em que eu cria, com todo temor possível, em uma série de coisas que não podem ser avaliadas pelas ferramentas do método científico. Essa crença era alimentada pelo dualismo cartesiano, normal durante a nossa infância. Quando crianças, temos essa natural tendência em dividir as coisas em opostos conceitualmente inconciliáveis. A consequência óbvia disto é a aceitação quase inquestionável, pela maioria dos 7 bilhões de humanos que pisam atualmente neste planeta, da separação entre material e imaterial, muito especialmente se esta "indiscutível" distinção diz respeito à nós. Acho que você já sacou do que estou falando, ou escrevendo (tanto faz). Não? Então, toma: temos um corpo, material, habitado por um espírito, ou alma, imaterial (poxa, isso é tão lugar comum que até me senti constrangido em anunciar), que deixará este receptáculo, constituído de músculos, ossos, nervos, pele e todo tipo de tecido que deixarei de fora dos exemplos, assim que, eufemisticamente, partirmos deste mundo (outro conceito cartesiano: este mundo!). Pois bem, então. Passei uma boa parte da minha adolescência, e da vida adulta, sem questionar essa certeza, sem, ao menos, pensar sobre! Fala sério. 
Mas aí, como sói ocorrer com todo - tá, tá, nem com todos - indivíduo que dá de cara (ainda que não esteja procurando) com argumentos, simples, que se recusam a aceitar este dogma (sim, isso é um dogma! Central em toda crença, pode investigar. Vai lá, vai.), comecei a ficar incomodado com toda insustentabilidade das "evidências" fornecidas pelos defensores do além túmulo. Mesmo que nunca houvesse existido uma só manifestação desta natureza que pudesse, de qualquer maneira, ser sustentada por provas (os crentes - sem conotação pejorativa - se irritam com esta palavra, eu bem sei) irrefutáveis (todos os fenômenos foram desmascarados sim senhor), os argumentos a priori e a posteriori arquitetados, muitas vezes, com sinceridade emocionante, garantindo-nos toda a parafernália espiritual, não se abalam, nenhum pouquinho que seja. Ao contrário, aqueles que acreditam, recrudescem ainda mais seu arsenal retórico, reforçando-o com um grande número - eles consideram que são um grande número - de evidências que nós, céticos, não, simplesmente, queremos aceitar, porque somos truculentos demais em nossas arrogantes certezas científicas, sem a sensibilidade necessária para aquilo que está fora do alcance do que sonha nossa vã filosofia (Shakespeare que me perdoe. Ei, acho que ele não pode mais fazer isso). Só para refrescar-me a memória: no post sobre fundamentalismo, deixei claro que não é bem assim.
Ok, você pode me perguntar: cara, que mal há, ainda que seja tudo um monte de baboseira crédula, em aceitar a existência de uma outra vida, em outro mundo, que só nós é possível depois que formos (olha o eufemismo aí novamente) desta pra melhor? Well, welll...nenhum, se, e só se, centenas de milhares de pessoas não fizessem disto a justificativa para atitudes que, em qualquer outra esfera da vida humana, seria indefensável. Você pode enumerar um Himalaia destas, tenho certeza. E, ainda que os moderados, e sensatos (?), a esse respeito existam aos borbotões, sua moderação e tolerância dá abrigo (é só pensar um pouco só sobre isso e terá uma surpresa) aos absurdos da certeza metafísica. 

Malditos Descartes e Platão! 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Meu oxímoro favorito!

Há muito me pergunto: como pessoas aparentemente sensatas, donas de uma inteligência considerável, que usam a razão para resolver praticamente todos os problemas que lhes visitam regularmente, acreditam com veemência no sobrenatural, ainda que não exista uma só virgula de evidência sólida para tais crenças? Como essas pessoas sustentam hercúleamente a certeza inflexível de um criador divino e pessoal, endereço de todas as virtudes mais valorosas, ainda que exista uma massiva contradição lógica natural para tal? Como pessoas adultas, com sugestivo nível cultural e acadêmico, não se sentem, por um único instante, incomodadas com o malabarismo de argumentos que insistem em convencer-nos da infantilidade das alegações metafísicas que "provam" deus, deuses, espíritos e toda o séquito mitológico a seguir tais afirmações? Como, mesmo diante dos mais insofismáveis documentos que elucidam toda a parafernália histórica e cultural, e suas intenções, pessoas inteligentes continuam a garantir-nos que somos especiais para uma entidade pueril e tão provável quanto o bule de Russell? Como? 
Eu tenho algumas teorias sobre, é claro, mas não vou compartilhá-las neste momento, embora estas ainda não me convençam do surrealismo ao qual tais pessoas parecem estar presas. E, então, você sabe, ou pode elucubrar, como??????  

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Fundamentalismo ateu


Não é raro encontrarmos, na rede, respostas calorosas de crentes, e até mesmos céticos, à posição radical e, consideram alguns, ostensivamente intolerante de alguns ateus à toda manifestação, ou melhor, afirmação de cunho religioso. Estas respostas geralmente usam a palavra fundamentalista para classificar tais posturas ateístas. Bem, o que é fundamentalismo? De acordo com o dicionário: 

1) Atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios e regras;
2) Doutrina que defende a fidelidade absoluta a interpretação literal dos textos religiosos;

Penso que ficou muitíssimo claro o que significa tal palavra, não é mesmo? Acontece que, depois de esclarecida tal definição, fica difícil, extremamente, acusar os ateus de fundamentalistas. Se você ainda não entendeu, vou explicar: um fundamentalista, na acepção da palavra, é aquele que não aceita, e não aceitará, nenhum, nenhunzinho sequer, argumento que contradiga suas crenças (sejam elas cristãs, judaicas, islâmicas, espíritas, budistas, xintoístas, cientologistas??, ou seja lá qual for a crença que você queira por em xeque), pois estas não estão fundamentadas em evidências (não confunda uma certeza manifesta, exposta pelo rigoroso escrutínio científico, com as "provas" fornecidas pelos fieis) mas sim na vontade inamovível em querer acreditar, como nos disse Carl Sagan. Assim, não importa o quão consistentes e avassaladoras sejam as evidências físicas (e elas existem às centenas)  que trituram toda a retórica religiosa, e fraturam, implacáveis, os alicerces claudicantes dos argumentos teístas e/ou sobrenaturais, os crentes fundamentalistas não recuarão um passo nas suas convicções. Isso é fundamentalismo. Para alguns ateus, e céticos, nosso fundamentalismo reside exatamente no oposto: basta uma única evidência, apenas uma, só uma, nada mais do que isso, por favor, de que existe um criador, arquiteto inteligente, artesão habilidoso, ou seja lá o adjetivo que se queira empregar, com todas as qualidades delegadas à este ser, assim como para qualquer afirmação de ascendência sobrenatural (espíritos, almas, fenômenos paranormais em geral, e todo o calhamaço de informações e alegações que estão fora da natureza e por isso - que conveniente - não podem ser investigados pelo método científico) e nós mudamos nosso discurso e nossa "crença" na mesma hora. Mostre-nos que, depois de passar por todos os rigorosíssimos estágios da investigação científica, certo fenômeno se sustenta e iremos, então, reconhecer: estávamos errados! Mas, é lógico, tais manifestações não podem ser consideradas pela ciência, pois esta, apesar de ser o melhor instrumento já criado pelo ser-humano para separar-nos da estupidez completa, nunca conseguirá estudar a essência destas afirmações, apesar destas se manifestarem fisicamente em nosso mundo regido por leis naturais já conhecidas (isso não é no mínimo engraçado?).
Assim, passamos à outras questões, por obséquio, pois o fundamentalismo ateu está encostado em algo imprescindível à vida adulta e sensata, que não se deixa enganar por afirmações que causam, se não em todas, em quase todas as vezes, prejuízos reais, nada metafísicos. 
Não sabe, ainda, do que estou falando? Então, de novo, lá vai: provas! 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Mundo Ateu?


Sejam bem vindos, ímpios e pios, ao Mundo Ateu! Aqui, neste logradouro, serão discutidos, comentados, criticados e o que mais me der na telha, assuntos referentes à religião e seus abusos (embora eu considere religião e abuso, na mesma frase, pleonasmo vicioso), à crença e toda a estupidez justificada em seu nome. Não será um espaço para meias palavras, mas não será, também, um local de ataque gratuito.
 Bem, se você tem certeza, como eu, que um ser invisível, morando no céu, que ouve preces, embora quase nunca as atenda (o quase faz justiça às meras coincidências), seja um resquício infeliz da primeira infância da humanidade, usado por espertalhões para explorar financeiramente um número inacreditável de homens e mulheres e lesar o Estado com a isenção de impostos, sem falar das atrocidades cometidas contra outros seres-humanos que creem no mesmo ser, mas discordam em alguns detalhes, o Mundo Ateu é seu endereço!
 Mas, se você acredita com toda a força do seu coração que existe um cara que está em todos os lugares ao mesmo tempo, que sabe de tudo e que pode tudo, que se interessa pela sua vida e tem planos, não só para você, mas para o resto do mundo todo, e que não pode ser escrutinado pela limitadíssima inteligência humana (embora suas afirmações contradigam isso), o Mundo Ateu também é pra você! Só não vale xingar, caso não concorde com minhas sinceras opiniões. 
Ah, ia me esquecendo: aqueles que desejarem enviar textos, fiquem à vontade. Se me agradar, posto! Se não, sem ressentimentos. 
O Mundo Ateu será patrocinado pela Sensatez, pela Lógica e pela Razão. Aquilo que ferir os interesses dos nossos patrocinadores será terminantemente...hum, vejamos...colocado em discussão! Que venham as idéias!