terça-feira, 27 de março de 2012

Você tem medo de quê?

    
Quando eu cria em deus, eu o fazia da maneira mais ortodoxa possível. Acreditada peremptoriamente num cara que morava no céu, que nos vigiava, ou melhor, zelava por nós, escutando cada nesga de pensamento que se formava em minha cachola e que dava a mínima importância à tudo - sem exceção - que eu fazia. Um cara, de barba branca e tudo, eternamente a escutar, e escrutar, minhas diárias reclamações, meus inacabáveis pedidos e relevava, como bom pai que era, meus poucos agradecimentos. Eu era um temente dos mais assíduos nas contas do Criador, pois não dava um passo sem pedir-lhe perdão pelos meus erros, na verdade pecados, cria.A maior parte da minha vida foi assim. 
    Então, não me lembro bem quando, alguma coisa começou a mudar. E, com esta mudança, veio, também, o medo. De que tudo fosse uma simples mentira e que, assim, minha vida perdesse o sentido. A mentira a qual me refiro atendia por um nome bem específico: Deus. Na hipótese Dele não existir, o que seria da minha vida? O que seria da vida de todos? Como poderíamos suportar uma existência sem um porquê, sem um significado maior? Como tolerar a ideia de um Deus inexistente e, deste modo, uma vida sem perspectivas, um "depois" sem "depois"? Admito que a simples conjectura de uma vida sem Deus parece ser insuportável quando estamos completamente limitados à um horizonte dependente de uma criatura infalível e imensuravelmente misericordiosa, que prestar-nos-á toda a assistência emocional e, por consequência, nos presenteará com as mais incalculáveis recompensas espirituais depois que a vida neste mundo encontrar seu fim (mas para isso, precisamos ser honestamente bons e, de acordo com as principais religiões monoteístas, acreditarmos sinceramente na Sua existência (a aposta de Pascal já não vale mais nada, hein galera?)). 
    Entretanto, tais elucubrações existenciais nunca exerceram um peso significativo nos meus iniciais conflitos sobre crença e descrença. Na verdade, graças à minha criação, tais questões eram fundamentadas mais em minhas impressões infantis a cerca de um ente todo poderoso, à parca religiosidade dos meus pais, que em momento algum encheram minha cabeça com ditaduras dogmáticas de qualquer credo. Sendo assim, o medo que pintou-se, no inicio, das mais vivas cores dessorou-se rapidamente, transformando-se num plácido veio de águas foscas e sem nenhuma força emocional. O medo de admitir, à parte mais profunda da minha personalidade, que definitivamente um Deus com todas as características atribuídas pelos teístas, fossem eles das mais distintas e inconciliáveis religiões, era completamente incompatível com o mundo que vivemos, totalmente incoerente com a uso e a exploração da Razão e do bom senso, inflexivelmente inadmissível do ponto de vista Lógico e, finalmente, uma ofensa imperdoável à inteligência, se desfez sem nenhuma nódoa de dor ou reticência, sem nenhuma cicatriz na alma (ah, licença poética!), sem um pingo de ansiedade ou temor. 
    Essa é a beleza primeva da descrença: à liberdade do medo que nos algema à limites intelectuais; à liberdade do medo que nos censura à alienação; à liberdade do medo que nos repreende toda vez que a dúvida nos coça a cachola e nos incita à busca; à liberdade de podermos dizer não e termos o direito de falar sim! Deixar de crer na existência de Deus, ou Alá, ou Jeová, ou seja lá a alcunha que se dê à esta ideia,   é voltar a ser aquilo que você nasceu para ser: livre, sem medo.      

terça-feira, 6 de março de 2012

Ainda evoluímos?


Quem é que nunca se perguntou se ainda estamos evoluindo? Tudo bem, admito que os criacionistas nunca, tampouco cogitam esta ideia. Mas, como evolucionistas que somos - pois pessoas sensatas não podem, por favor, pelo amor de deus (ehehehe), considerar o contrário - e, como ignorantes em vários aspectos da teoria da evolução, uma vez, ou outra, nos pegamos a lucubrar a questão: Ei, será que a espécie Homo ainda evolui?
Bem, ao que tudo indica, ou seja, o que nos mostram as pesquisas a respeito, sim, estamos. Mas, antes, preciso esclarecer os engraçadinhos que ainda querem pegar-nos na estúpida charada "se somos descendentes de macacos, por que ainda existem macacos?". É verdade, meu caro amigo, e amiga, há ignóbeis, nestes dias hodiernos que ainda conjecturam tal pergunta. Pode acreditar. Então, lá vai: nós não evoluímos dos macacos, e sim de um ancestral comum (como você pode ver no esquema que ilustra este post). Essa é uma informação cediça, há muito, nas plagas evolucionistas. Mas, vocês sabem, em se tratando dos filhos de Adão e Eva...
O que os estudiosos sabem, sobre a pergunta que intitula esta postagem, é que, para a evolução, os fatores mais importantes, aqueles que preponderam, são os diferenciais de reprodução entre os indivíduos que ainda existem atualmente e que podem variar significativamente entre os diversos grupos humanos. Contudo, esclarecem os especialistas, mesmo que não haja evolução biológica, a seleção natural continua a exercer seu papel através de outros fatores e mecanismos evolutivos que se mantem atuantes mesmo na ausência de variações genéticas associadas à fenótipos mais ou menos vantajosos durante as inevitáveis interações sócio-ecológicas entre os indivíduos e entre eles e o meio. 
Evolução, então, meu camarada, não significa apenas e tão somente a sobrevivência do mais apto (na verdade, isso é seleção natural - ainda que uma coisa não anule a outra) e necessárias mudanças na estrutura anatômica de uma espécie, embora tenhamos estudos mostrando alterações específicas entre transgerações que se sucedem em populações humanas modernas, especialmente em mulheres. Dito isso, quando perguntarem se ainda estamos evoluindo, responda sim! Afinal esta senhora é um processo dinâmico, que parece nutrir certa hostilidade às situações estáticas, enfadonhas. 

Quer saber mais, muito mais? Pesquise, ora bolas. Eu já "dei a letra". 


sexta-feira, 2 de março de 2012

Ave, Maria!


Alguns imperadores romanos são notórios por sua arrogância, petulância, prepotência e um calhamaço de vícios que nascem, insofismavelmente, do poder, ainda mais quando absoluto. Megalomaníacos ao absurdo do extremo, foram indivíduos que deixaram a História da humanidade um pouco mais plena de vergonha daquilo que os homens - espécie, não gênero - são capazes em nome da loucura autoritária inerente à detenção do poder. Soma-se à esse caldeirão urente de interesses - dos mais mesquinhos aos mais corporativistas - a perspectiva astuta da religião, e teremos uma série de consequências nada altruístas para os governados e, em alguns casos - como o que citarei - até mesmo para os indivíduos de um futuro remoto àquela época de césares tresloucados.
Do que estou a falar, afinal? O título do post não deixa claro? Pois bem, meus caros amigos, e amigas, acontece que, em um passado de glórias palacianas, o império romano abrigou alguns celerados, déspotas muito bem esclarecidos, que usaram e abusaram da crença alheia para manipular (acho que hoje ainda é assim...) sem descanso à fé dos pios, por meio dos Concílios (reunião de autoridades eclesiásticas) que deliberavam sobre todo e qualquer artigo de fé que pudesse ser útil aos interesses dos comandantes. E, adivinha? Um destes artigos, atendendo a uma necessidade premente à época, pois Estado e igreja estavam sendo prejudicados por cultos à deusas mães pagãs, resolveu por elevar uma senhora distinta (que a tradução do hebraico para o grego tratou de "errar"  o moça para virgem) ao status que hoje é cultuado por bilhões de cristãos ao redor do mundo todo: a virgem Maria! Isso mesmo, até a época deste famigerado Concílio, a mãe do ungido nada mais era que uma simples personagem bíblica sem a máscara de divindade acrescentado por imperadores e bispos sedentos por arrebanhar o séquito que se perdia em outros cultos.
Então, fervorosos devotos de nossa senhora (sua? minha não, definitivamente), saibam que a imaculada conceição que tanto cultuam é uma construção histórica, feita por homens que estavam unicamente interessados em usar uma figura bíblica para atingir objetivos ímprobos, dos mais egoístas, a serviço de uma ideologia que, ainda hoje, vestidas com as roupas alegres da democracia, dirige a vida da esmagadora maioria daqueles que vivem em genuflexão, não só da articulação femuro-tibial, mas do espírito (ei, tu sabes que não acredito nessa coisa de espi...ah, deixa pra lá, vocês sabem).
Então, pereirões adoradores de nossa senhora (essa mesmo que vive a aparecer nos mais ermos lugares; essa que vive a chorar e dar cores à imagens, ainda que a ciência não veja cor nenhuma; essa que vive a chorar em estátuas e a sussurrar meia duzia de parlapatices à meia dúzia de ignorantes), séquito crudelíssimo da virgem (ops, o certo é moça, moooooçaaaaa, sem a conotação sexual pejorativa empregada hoje; é moça, sinônimo de jovem!!!) Maria, seria tão bom se dirigissem seus agradecimentos ao acaso indiferente, ou à toda ação humana que, invariavelmente, define os rumos de todas as vidas. 
Graças a minha virgem santíssima? Ah, por favor!!! Que tal um pouco de História?    

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cinco minutos com Jesus


Se não me falha a memória, cerca de 30% da população mundial é cristã. Bem, uma vez que somos, atualmente, 7 bilhões, e que um número considerável deste montante é de crianças, que só pertencem à alguma religião por pura estupidez dos seus pais, é razoável afirmar que um percentual ainda menor de homens e mulheres acreditam em Cristo.
E você pergunta: e daí, Victor?
Bem, e daí que esses respeitáveis cristãos desconsideram, por ignorância ou conveniência, ou a soma dos dois (o que é, para mim, a mistura mais provável) a falta absoluta (e quando uso este termo tão taxativo, o faço sem receio de mostrar qualquer intolerância) de evidências (provas concretas) Históricas para a existência do messias que dividiu a história ocidental em antes e depois dele. Sendo assim, como é possível (e não vou dizer que a resposta está na especulação que fiz algumas linhas acima) que uma parcela nada significativa de primatas que pensam que pensam continuem a influenciar tão decisivamente a política e a economia mundial usando como justificativa os imperativos morais (que deixou bem claro que você irá queimar no inferno, literalmente, se não acreditar nele) de uma personagem fictícia?
A resposta, é claro, pode ser investigada nas réplicas imediatas e emocionadas não só de fervorosos defensores apedeutas (a maioria, obviamente), mas também nos inflamados e irascíveis argumentos dos intelectuais cristãos (isso é uma piada, né?) que nos derramam calhamaços de documentos "verossímeis" sobre a existência do redentor.
Ah, fala sério!!! Se você ainda não sabe, temos um número belíssimo de culturas, civilizações, muito mais antigas que o surgimento do cristianismo que nos contam a mesma história: um deus, ou salvador, nascido de uma virgem, que ressucitou tres dias após a sua morte, e blá, blá, blá, todo o espectro da historinha do ungido mais famoso de todos, até agora. Como, meu deus (eheheh), como, ainda nos deparamos com adultos que negam esse esclarecedor detalhe? Mais uma vez: ignorância e medo. Ignoram os fatos e temem-no como o diabo à cruz (hoje estou demais), pois tirar-lhes a esperança (Nietzsche estava bem certo ao dizer que esta é o pior flagelo da humanidade, neste caso) de uma vida além túmulo (porque nesta aqui tá difícil) cheia de recompensas ao lado daquele que está sentado ao lado direito (olha a intolerância com os canhotos...) de deus pai (sexismo...) todo poderoso.
Então, meus queridos, e queridas, defensores fervorosos de JC, que muito provavelmente deveria estar na mesma estante onde encontramos o Super-Homem, a Pedra Filosofal e Guerra dos Tronos, façam o favor de  esclarecer sua resolutas sentenças morais e éticas se quiserem sustentá-las nas costas de uma personagem tão crível quanto seu inefável Pai. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Antes do nada? Nada.


Você sabe o que foi o Big-Bang, não é mesmo? Aquela explosão (tudo bem, os cientistas sabem que, na real, não foi uma explosão de fato) que originou o universo há cerca de 13,5 bilhões de anos (um pouco mais, um pouco menos). Muitos teístas aceitam este fato científico (fato científico, para mim, é pleonasmo vicioso, mas esta é outra história...) tranquilamente, sem que suas crenças sejam comprometidas por esta evidência. O que os tira do sério, ao que parece, é a resposta da ciência a uma perguntinha básica:
Ok, o Big-Bang gerou o universo, mas me diga uma coisa, o que havia antes do grande "Cabum"? 

E os cientistas, plácidos, tranquilos com o que vem a seguir, mandam: nada. Isso mesmo, caro leitor, nada! Mas, como assim? As coisas não surgem do nada! Para todo efeito há uma causa! É física, meu chapa, física! 
Isso parece um argumento insofismável, não é mesmo? É, só parece, se você realmente acredita que sabe alguma coisa sobre Física (com letra maiúscula, por favor!). E sabe porque? Porque os cientistas sabem (quanto sabe, um atrás do outro!), há algum tempo que as coisas podem vir do nada, sim. E elas acontecem a toda hora. Em nível subatômico, as coisas vem do nada e vão sabe-se lá pra onde, a todo instante. É tão corriqueiro, que este fato em si já é, creio, enfadonho para a comunidade científica. O que deve gerar euforia, ainda, é saber a razão dito. Isso sim!
E o que o nível subatômico tem a ver com a criação do universo, afinal de contas? Tudo! Este senhor de distâncias incalculáveis foi originado em um buraco-negro (uma estrela que consegui eclipsar-se e que suga tudo, até a luz, tamanha força gravitacional desta belezinha), que tem as mesmas propriedades físicas das partículas malucas que a física quântica estuda há algum tempo. Ou seja, o universo, assim como as inescrutavelmente diminutas partículas do leite que você toma no seu café da manhã, apareceu do nada! E, como nos buracos-negros até mesmo o tempo pára, literalmente, não havia tempo para justificar um "antes". 

Entendeu? Não? Mas como???

Veja por este lado: se você acha que, mesmo aceitando a teoria (e teoria não é algo a ser provado, apenas no "papel" ainda, please) do Big-Bang, alguma coisa - deus, ou uma força criadora inteligente, que seja - necessariamente precisa ter iniciado o processo, você está equivocado, pois as leis naturais que regem tudo no vasto aglomerado de matéria, energia e espaço (certo, Einstein, simplificou isso, unindo matéria e energia) explicam satisfatoriamente como as coisas podem, e surgem, do nada. Isso, para mim, e para um número significativo de carinhas que chafurdam em horas e horas de pesquisa, de estudo intenso, e que tem muito, mas muito mesmo, para nos ensinar, é muito mais elegante (aliás, é muito mais incrível) que um dedo mágico apontando para o nada e dizendo: faça-se a luz (é assim que se diz?)!

Então, antes de sair por aí dizendo que nada vem do nada, que tal informar-se um pouquinho mais? 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A verdade está lá fora?


Nosso universo tem, aproximadamente, 1 bilhão de trilhões de estrelas. Só a nossa galáxia tem 400 bilhões de estrelas. O quão provável é a possibilidade de existir vida fora do nosso pálido ponto azul (ah, Sagan, meu herói)? Em respeito a verdade, alguns cientistas já nos forneceram evidências de fósseis bacterianos em meteoritos vindos de Marte, pois há muito tempo, parece,a superfície deste planeta fora coberta de água, e onde há água, há uma chance enorme de existir vida. Mas são simples bactérias, não há graça nenhuma nisso (lembre-se que nós já fomos simples bactérias, antes de considerar isto um tédio). 
E vida, sendo mais específico, inteligente? 
Apesar da insuperável - ou algo perto disso - vontade de muitos em responder prontamente que sim, existe vida inteligente (aqui mesmo, a coisa é rara) fora da Terra, não há uma evidência sequer, até hoje (2 de dezembro de 2011), que sustente a afirmação categórica de muitos crédulos a respeito da existência de seres que tenham vindo de algum outro lugar deste nosso gigantesco universo. Todas as alegações, quando postas sob a observação rigorosa do método científico, são desqualificadas de imediato e, por consequência, explicadas como fenômenos há muito conhecidos pelos cientistas. 
Poxa, quer dizer então que estamos sozinhos nesta vizinhança galática nada modesta em termos geográficos? Eu, tampouco os mais sérios e respeitados astrônomos e astrofísicos, afirmamos isto. Consideramos (eu não estou me colocando no mesmo patamar que estes caras, por favor) que há boas chances de existir vida inteligente "lá fora", e a ciência até mesmo já encontrou um, ou outro, planeta que parece fornecer algumas (veja bem, eu disse algumas) das condições necessárias para o abrigo da vida "como" a conhecemos (outro tema de muito debate), mas nada além disso. Nadica de nada. 
Para os entusiastas, um número desconcertante de aparições "provam" que estamos sendo visitados. Há uma biblioteca inteira de livros que nos garantem isso. Um número maior ainda de pessoas, até bem intencionadas, que juram de pé junto, já terem visto espaçonaves e ETs. Mas, revelador mesmo é o número 99,3%. Este é o número de OVNIs identificados (engraçado, não é mesmo? eu acho) pelos observadores imparciais e até mesmo por astrônomos amadores (balões meteorológicos são os campeões de confusão), usando um pouco só de conhecimento científico (vale lembrar que, infelizmente, parece que a maioria da população mundial é analfabeta cientificamente).  
E, que mal há, de qualquer jeito, em crer que estamos, apesar de todas as provas contrárias, sendo visitados por ETs ultramegahiperevoluídos que vivem a nos abduzir e tem uma incompreensível obsessão por experiências de natureza sexual? Que tal esta resposta: tal crença lhe deixa fragilizado e muito mais exposto ao primeiro charlatão que usará esta para explorá-lo (financeiramente na maioria esmagadora das vezes), provocando um enorme prejuízo material e emocional não só à sua pia pessoa, mas, provavelmente, àqueles que vivem próximos à você e que não partilham deste fervor alucinatório.  
A verdade está lá fora? Pode até estar, mas antes você precisa procurar pelas que estão aqui, primeiro.      

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Por que você é ateu?


Há uma briga, ou algo parecido, acontecendo entre aqueles que não acreditam em Deus. Esta parece ocorrer basicamente em função da resposta à pegunta deste post. Como assim? Quando você "manda": sou ateu porque não acredito em deus, ou , nego deus - como define o léxico - e pronto, nada mais, mas ainda cultiva uma série de preconceitos já derrubados pela ciência (como os de cor, orientação sexual, classe social, educacional e muitos outros), está demonstrando o que muitos pensadores chamam de ateísmo raso, ou ateísmo de dicionário. E, há algum problema nisso? Aparentemente sim. Acontece que o ateísmo é um pouco mais que isso. É um pouco mais do que negar deus, que não acreditar na existência de tal entidade. Esta é uma consequência do ateísmo, e não a causa. O ateísmo é - eu penso, ao menos - um sistema de observação fundamentado na reflexão crítica de assuntos que são essencialmente indispensáveis à vida em comunidade. Esteja esta em qualquer um dos lados da linha do equador.
Ser ateu é estar irremediavelmente comprometido com a humildade do equívoco - sem gritá-lo à todos - e com a verdade, muitas vezes momentânea, das certezas científicas, ainda que estas nos desagradem substancialmente. Ser ateu, ou atéia, me desculpem as gurias pelo esquecimento, é ter certeza de que uma crença infundada será significativamente perniciosa, em algum momento, para um número assustador de homens e mulheres que darão continuidade à estas atitudes porque simplesmente abriram mão de pensar sobre elas, e usar esta certeza como instrumento de luta contra estes jugos. Ser ateu é abrir a boca contra injustiças de toda natureza, ainda que estas pareçam estar protegidas pelas diferenças culturais e pela roupa puída da religiosidade. Ser ateu é pensar sobre suas posições políticas, econômicas, pedagógicas e seja lá o que for, quando confrontadas com o conhecimento científico que desafia estas posturas. Ser ateu é negar o engodo da falácia pseudocientífica que vive às custas do discurso pomposo daqueles que usam as crendices insustentáveis para ludibriar e explorar a população. Ser ateu é estar vacinado contra dogmas que são forjados na ignorância pertinente dos extorquidos. Ser ateu é muito mais que apenas negar deus, seja ele abraâmico, nórdico ou helênico (só pra ficar nuns poucos). Ser ateu é estar comprometido com a verdade, ainda que ela venha a desmentir tudo aquilo que defendemos fervorosamente um dia
Mas, espere um pouco: não posso ser tudo isso, sem ser ateu? Talvez, mas será difícil resistir à retórica sedutora daqueles que lhe afirmam que isso tudo depende de um criador universal, de que existem coisas que não podem, simplesmente, ser explicadas pela razão e que devemos, desta maneira, ter fé somente, ficando, assim, à mercê de alegações que produzem erros e, por consequência, malefícios indefensáveis do ponto de vista ético e moral (não só à espécie humana, pois a crença de que somos o paroxismo da existência ainda produz a exploração cruel de outras espécies e do ambiente).
Por que você é ateu?