Quando eu cria em deus, eu o fazia da maneira mais ortodoxa possível. Acreditada peremptoriamente num cara que morava no céu, que nos vigiava, ou melhor, zelava por nós, escutando cada nesga de pensamento que se formava em minha cachola e que dava a mínima importância à tudo - sem exceção - que eu fazia. Um cara, de barba branca e tudo, eternamente a escutar, e escrutar, minhas diárias reclamações, meus inacabáveis pedidos e relevava, como bom pai que era, meus poucos agradecimentos. Eu era um temente dos mais assíduos nas contas do Criador, pois não dava um passo sem pedir-lhe perdão pelos meus erros, na verdade pecados, cria.A maior parte da minha vida foi assim.
Então, não me lembro bem quando, alguma coisa começou a mudar. E, com esta mudança, veio, também, o medo. De que tudo fosse uma simples mentira e que, assim, minha vida perdesse o sentido. A mentira a qual me refiro atendia por um nome bem específico: Deus. Na hipótese Dele não existir, o que seria da minha vida? O que seria da vida de todos? Como poderíamos suportar uma existência sem um porquê, sem um significado maior? Como tolerar a ideia de um Deus inexistente e, deste modo, uma vida sem perspectivas, um "depois" sem "depois"? Admito que a simples conjectura de uma vida sem Deus parece ser insuportável quando estamos completamente limitados à um horizonte dependente de uma criatura infalível e imensuravelmente misericordiosa, que prestar-nos-á toda a assistência emocional e, por consequência, nos presenteará com as mais incalculáveis recompensas espirituais depois que a vida neste mundo encontrar seu fim (mas para isso, precisamos ser honestamente bons e, de acordo com as principais religiões monoteístas, acreditarmos sinceramente na Sua existência (a aposta de Pascal já não vale mais nada, hein galera?)).
Entretanto, tais elucubrações existenciais nunca exerceram um peso significativo nos meus iniciais conflitos sobre crença e descrença. Na verdade, graças à minha criação, tais questões eram fundamentadas mais em minhas impressões infantis a cerca de um ente todo poderoso, à parca religiosidade dos meus pais, que em momento algum encheram minha cabeça com ditaduras dogmáticas de qualquer credo. Sendo assim, o medo que pintou-se, no inicio, das mais vivas cores dessorou-se rapidamente, transformando-se num plácido veio de águas foscas e sem nenhuma força emocional. O medo de admitir, à parte mais profunda da minha personalidade, que definitivamente um Deus com todas as características atribuídas pelos teístas, fossem eles das mais distintas e inconciliáveis religiões, era completamente incompatível com o mundo que vivemos, totalmente incoerente com a uso e a exploração da Razão e do bom senso, inflexivelmente inadmissível do ponto de vista Lógico e, finalmente, uma ofensa imperdoável à inteligência, se desfez sem nenhuma nódoa de dor ou reticência, sem nenhuma cicatriz na alma (ah, licença poética!), sem um pingo de ansiedade ou temor.
Essa é a beleza primeva da descrença: à liberdade do medo que nos algema à limites intelectuais; à liberdade do medo que nos censura à alienação; à liberdade do medo que nos repreende toda vez que a dúvida nos coça a cachola e nos incita à busca; à liberdade de podermos dizer não e termos o direito de falar sim! Deixar de crer na existência de Deus, ou Alá, ou Jeová, ou seja lá a alcunha que se dê à esta ideia, é voltar a ser aquilo que você nasceu para ser: livre, sem medo.

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