quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Por que você é ateu?


Há uma briga, ou algo parecido, acontecendo entre aqueles que não acreditam em Deus. Esta parece ocorrer basicamente em função da resposta à pegunta deste post. Como assim? Quando você "manda": sou ateu porque não acredito em deus, ou , nego deus - como define o léxico - e pronto, nada mais, mas ainda cultiva uma série de preconceitos já derrubados pela ciência (como os de cor, orientação sexual, classe social, educacional e muitos outros), está demonstrando o que muitos pensadores chamam de ateísmo raso, ou ateísmo de dicionário. E, há algum problema nisso? Aparentemente sim. Acontece que o ateísmo é um pouco mais que isso. É um pouco mais do que negar deus, que não acreditar na existência de tal entidade. Esta é uma consequência do ateísmo, e não a causa. O ateísmo é - eu penso, ao menos - um sistema de observação fundamentado na reflexão crítica de assuntos que são essencialmente indispensáveis à vida em comunidade. Esteja esta em qualquer um dos lados da linha do equador.
Ser ateu é estar irremediavelmente comprometido com a humildade do equívoco - sem gritá-lo à todos - e com a verdade, muitas vezes momentânea, das certezas científicas, ainda que estas nos desagradem substancialmente. Ser ateu, ou atéia, me desculpem as gurias pelo esquecimento, é ter certeza de que uma crença infundada será significativamente perniciosa, em algum momento, para um número assustador de homens e mulheres que darão continuidade à estas atitudes porque simplesmente abriram mão de pensar sobre elas, e usar esta certeza como instrumento de luta contra estes jugos. Ser ateu é abrir a boca contra injustiças de toda natureza, ainda que estas pareçam estar protegidas pelas diferenças culturais e pela roupa puída da religiosidade. Ser ateu é pensar sobre suas posições políticas, econômicas, pedagógicas e seja lá o que for, quando confrontadas com o conhecimento científico que desafia estas posturas. Ser ateu é negar o engodo da falácia pseudocientífica que vive às custas do discurso pomposo daqueles que usam as crendices insustentáveis para ludibriar e explorar a população. Ser ateu é estar vacinado contra dogmas que são forjados na ignorância pertinente dos extorquidos. Ser ateu é muito mais que apenas negar deus, seja ele abraâmico, nórdico ou helênico (só pra ficar nuns poucos). Ser ateu é estar comprometido com a verdade, ainda que ela venha a desmentir tudo aquilo que defendemos fervorosamente um dia
Mas, espere um pouco: não posso ser tudo isso, sem ser ateu? Talvez, mas será difícil resistir à retórica sedutora daqueles que lhe afirmam que isso tudo depende de um criador universal, de que existem coisas que não podem, simplesmente, ser explicadas pela razão e que devemos, desta maneira, ter fé somente, ficando, assim, à mercê de alegações que produzem erros e, por consequência, malefícios indefensáveis do ponto de vista ético e moral (não só à espécie humana, pois a crença de que somos o paroxismo da existência ainda produz a exploração cruel de outras espécies e do ambiente).
Por que você é ateu? 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fala baixo, Deus castiga!


Um dos meus trabalhos é em uma academia de ginástica. E, um dos - senão for o mais - insistentes mitos propalados, e afirmados, pelos leigos, nos meandros da fisiologia humana submetida ao esforço dos exercícios físicos regulares e sistemáticos (os especialistas que me perdoem o pleonasmo), é a relação mágica entre os famosos abdominais e o sumiço da gordura localizada nesta região (também conhecida por pança). Caramba, porque diabos estou falando isso? Porque, dia destes, tive mais uma - das zilhões - conversa sobre esta relação entre exercícios abdominais e barriga tanquinho com um aluno e - pela trocentésima vez - tentei enfiar na cabeça desta galera que isto é um mito, lenda, folclore, ainda que tais conceitos não estejam fazendo justiça ao erro de tal raciocínio. E esse momento forneceu o ensejo para que eu ilustrasse tal crença com outro exemplo. Qual? Agora sim, você entendeu, afinal este é o Mundo Ateu! Disse à ele que esta crença não encontrava nenhuma sustentação na literatura científica. Nunca houve uma só evidência de boa qualidade na História das evidências que justificasse esta fé nos exercícios abdominais. Assim como não há nenhuma para você acreditar que, lá em cima - apontei para o firmamento, é claro - mora um ser invisível responsável por toda a existência. Aqui, vou tentar reproduzir o breve diálogo:
(Aluno) - O quê? Como você fala isso?
(Eu) - E porque não?
(Aluno) - Você não pode falar assim?
(Eu) - E porque não?
(Aluno) - Porque deus castiga! 
(Eu) - Ã?
(Aluno) - Shiiiiiii..fala baixo, Deus castiga! (expressão séria, decidida)

Fim da conversa.

Depois disso, o crédulo foi embora, pois sua hora já havia terminado, e eu fiquei remoendo a proto-aposta de Pascal que ele formulou, muito toscamente, é claro, mas que me pedia para falar baixo, como se tal atitude amenizasse minha situação com jeová, o onisciente. Putz! 
Fechei a academia, entrei no carro e, antes de dar a partida, pensei no universo de pessoas que tem certeza absoluta (outra redundância necessária) dos castigos que eu, e todos os ateus, receberei pelo simples fato de não acreditar, independente de tentar levar uma vida justa e honesta, praticando, em quase todas as ocasiões, valores universais que se traduzem no bem estar do próximo. 

Acho que não vou falar baixo coisa nenhuma!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

É milagre, não tá vendo?


Hoje vou expor minha irritação sobre a cegueira que assalta boa parte - senão todos - dos crentes (sem conotações pejorativas ao termo, por favor, caso contrário vão deixar de lado todos os píos aos quais me dirijo) colocados diante daquilo que vou chamar de "O dilema da crença ignara". Do que estou falando? Vou dar um exemplo, que ilustra todos os casos semelhantes: um ônibus cai num precipíco e causa a morte de todos os passageiros, menos um, é claro. Como assim, "é claro"? Claro porque este felizardo- ou nem tanto assim -  é o que basta para a afirmação imediata de que a mão divina foi a reponsável pela sua sobrevivência. Ou como explicar tal fato? Só pode ter sido o legislador cósmico, ora essa!
Então, é aí que o tal dilema, supracitado, entra em cena. Se o arquiteto inteligente quis provar sua existência, por que deixou várias pessoas se ferrarem (isso é eufemismo?) e um único (traumatizado pra cacete a vida toda, provavelmente) infeliz vivo? Por que ele precisa deste meios nada sutis para dizer-nos, "ei, tão vendo como eu sou misericordioso"? Por que as pessoas insistem em ver, nestas desgraças, o acaso como milagre? (Sem falar dos familiares daquela gente toda que foi pras cucuias, e vão chorar uma vida inteira suas perdas). Dilema da crença ignara! Taí a resposta. E não vale correr e pedir ajuda para o lívre arbítrio, por mais que não faça sentido algum tal desespero metafísico. Acho que fiz um bem à humanidade e criei uma teoria nova que explica toda essa verborragia milagreira! Êita nóis!

E se você acha que isso ( só isso?) não é nenhum pouco irritante, é porque já está atolado na sutileza falaciosa do dilema. Mas, não fique assim, ainda é tempo de enfurecer-se contra esta ignorância, e mandar sua deficiência para os infernos!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tá tudo dominado!


Há quem diga que o Brasil é um estado laico. E, esse indivíduo está certo. Nossa constituição corrobora tal sentença. Está lá, para quem quiser ver, ou ler, tanto faz. Religião e governo, aqui, onde ouvimos do Ipiranga um brado retumbante, às margens plácidas, estão separados! Exultante, não é mesmo? Eu diria que sim, pois nossos representantes, eleitos democraticamente (?), estão sentados na confortável poltrona da separação entre estas duas instituições.
Mas, todavia, entretanto, porém, contudo, a prática não parece considerar a teoria. Na verdade, escarnece desdenhosamente (isso é pleonasmo?) deste artigo constituínte! Vamos escancarar (se é que precisa): nosso estado é refém histórico dos interesses religiosos, especialmente do proselitismo acintoso cometido por um grupo, em particular. Já sabem de quem estou a falar, ou escrever (ah, tanto faz vai), não é mesmo? Católicos!! Somos, como federação, soberanos de meia pataca quando o assunto, seja ele qual for, envolve o interesse da alta cúpula do credo apostólico-católico-romano. Sincretismo? Talvez no léxico. Talvez.
Nos prédios públicos, o simbolo máximo do cristianismo é imposto com uma unilateralidade furibunda, me dou o direito de adjetivar. Principalmente se outras crenças forem levadas em consideração (não, eu nas as levo, mas é esclarecedor ilustrar meu argumento com outros credos) nos seus direitos, completamente assegurados pela lei, de terem seus símbolos apregoados donde quer que seja, uma vez que resguardem o respeito à descrença, também (tá difícil...).  
Estado laico, secularista, é, infelizmente (mesmo!), uma utopia na mais inflexível acepção da palavra, para a infelicidade geral de uma nação explorada, extorquida, vitimizada, violentada nos seus direitos mais básicos, que paga juros sobre juros todo santo (ops!) mês em razão da covardia, nenhum pouco velada, de um Estado servil aos caprichos cruéis da religião. Quer que eu os cite? Ei, em que país você vive? Em uma terra secularista é que não é. 
Ah, ia me esquecendo das escolas púlicas (que vergonha)...